“A única forma de superar a morte é dar um novo significado a ela. É não permitir que tenha a última palavra. Doar as flores é a forma que eu encontrei. Eu enterrei o amor da minha vida no primeiro dia da primavera, e é impossível atravessar essa estação sem sentir essa tristeza. Mas há formas de olhar para isso. A flor só nasce quando rompe com a casca dura da semente. E é olhando para a minha história, pela sorte de ter vivido com eles, que eu posso atravessar o luto sentindo gratidão.  Eu espero que cada pessoa que pegar o livro e os girassóis nas mãos, sinta isso: se a gente não pode mudar as coisas, a gente pode mudar o nossos olhar para elas. É nesse enxergar diferente que a gente tem a chance de mudar e se alegrar com a existência – por mais dolorida que ela seja, às vezes”.

 

No dia 22 de setembro de 2015, Natália Sousa recebeu uma das notícias mais difíceis de sua vida: o jornalista Gino José Bardelli Júnior, com quem namorava por quatro anos, morria de um câncer raro e silencioso aos 32. A morte era precoce, repentina e acontecia um ano depois da paulistana perder a mãe, Elizênia, aos 59. “Primeiro veio o choque, a negação; uma sensação de estar anestesiada, desconectada da realidade. Depois veio a dor: violenta, profunda e tão intensa que chegava a ser física. Me faltava o ar.” Natália conta que precisou recorrer à escrita para lidar com os dias difíceis que seguiram. “O luto te deixa em uma posição de desconforto muitas vezes, por ser um tabu, por ser um assunto evitado, nem todo mundo consegue acolher seus sentiJornalista que perdeu mãe e grande amor na primavera supera luto distribuindo flores

mentos. Minhas saída, era escrever, porque no papel cabia tudo.”

Trecho do livro: a incoerência da morte é que o amor não acaba com ela. É como se você estivesse escolhido uma estrada para caminhar acompanhado. O outro vai embora, mas ainda tem chão. E você continua, sozinho. E é uma solidão que não é ausência de amigos, de família, de gente querida. É a solidão de uma voz, de um cheiro, de um jeito, de uma mania. Solidão de uma história que era dois mas, de repente, te sobrou só.  Uma solidão que só acaba quando esse alguém volta. Ou você se cura. Ou você entende que nada é para sempre. Então agradece pelo que foi e, mesmo respeitando o vazio que insiste, continua, ainda que precise decidir isso todos os dias. Ainda que seja difícil fazer funcionar.

Em 2015, quando completou um ano da morte de Gino, Natália idealizou o projeto: Me Dá uma Notícia Boa? Na época, a jornalista distribuiu cartas coloridas pedindo à desconhecidos que contassem algo feliz a ela. “Valia tudo. Desde a descoberta de um novo sabor de sorvete até uma viagem gostosa” A intenção era atravessar o mês de setembro encontrando motivos para se alegrar. A repercussão do projeto foi tão grande que as mensagens chegaram de vários Estados, onde os envelopes nem tinham circulado. Como eram compartilhadas na internet, por meio das hashtags #umanoticiaboa #tuavidaemmim, quem escrevia, também podia acompanhar, virando uma grande corrente do bem. “Fiz pensando em me curar, mas muitas pessoas enlutadas me escreveram dizendo que tinham se sentido acolhidas por causa do projeto e pedindo para que eu dissesse como tinha conseguido superar. Foi aí que veio a ideia do livro”.

Natália Sousa é jornalista, escritora, idealizadora do projeto Me dá uma Notícia Boa? e autora da obra Tua Vida em Mim. Apaixonada pelo cotidiano, encontra nas crônicas uma forma de pintar e aliviar o dia a dia.