Olá leitores, dando sequência ao especial da Semana Toda luz que não podemos ver, cujo objetivo é mostrar os trechos preferidos do livro.
Confesso, foi difícil deixar só esses, mas cada um tem um significado importante no livro e na leitura como um todo, claro, sem dar grandes spoilers.

“O mundo cai em um embalo gentil, para trás e para a frente, como se a cidade deslizasse suavemente para longe da costa. Como se deixasse para trás o interior da França a roer as unhas, a fugir, a tropeçar, a chorar e a acordar em um alvorecer cinzento, entorpecido, incapaz de acreditar no que está acontecendo. A quem pertencem as estradas agora? E os campos? As árvores?”

““Abram os olhos”, conclui o homem, “e vejam o máximo que puderem antes que eles se fechem para sempre”, e então entra um piano, toca uma música solitária que soa a Werner como um barco dourado viajando por um rio escuro, uma progressão de harmonias que transfigura Zollverein: as casas transformadas em brumas; as minas, preenchidas; as grandes chaminés, demolidas; um mar ancestral transbordando nas ruas, e o ar fluindo com possibilidades.”

“Um pedaço do céu noturno, além de uma parede de árvores, exibe um brilho vermelho. Na luz lúgubre e tremeluzente, ele vê que o avião não estava sozinho, que proliferam no céu, uma dúzia deles arremetendo para trás e para a frente, acelerando em todas as direções, e, em um momento de desorientação, ele sente não estar olhando para cima, e sim para baixo, como se um holofote iluminasse um espelho d’água repleto de sangue, o céu transformado em mar, e os aviões são peixes famintos, destruindo suas presas na escuridão.”

“Vagarosamente, agradecidamente, o mundo se aquieta. Do lado de fora vem um leve tilintar, fragmentos de vidro, talvez, caindo nas ruas. É ao mesmo tempo estranho e belo, como se do céu estivessem chovendo pedras preciosas.
Será que o tio-avô sobreviveu, seja lá onde estiver?
Será que alguém sobreviveu?
Será que ela sobreviveu?
A casa estala, goteja, range. Sobrevém um som como o farfalhar de um matagal, porém mais ávido. Um som que suga as cortinas, suga as partes delicadas dos ouvidos dela. Ela sente o cheiro de fumaça e entende: fogo. A vidraça da janela de seu quarto se espatifou, e ela escuta através das venezianas o som de alguma coisa queimando. Algo colossal. O bairro. A cidade inteira. A parede, o chão e a parte debaixo da cama dela permanecem frias. A casa ainda não está em chamas. Mas por quanto tempo?
Acalme-se, ela pensa. Concentre-se em inspirar, expirar. Inspire de novo. Ela permanece
embaixo da cama. Diz para si mesma:
— Ce n’est pas la realité.”